6.5.09

data venia, com muita humildade...


Passar o feriado todo estudando, além de aliviar a consciência, provou que a leitura acadêmica pode ser uma diversão à parte. É engraçado que os autores das obras ditas científicas se preocupem tanto com o formalismo a ponto de enclausurar o conhecimento numa escrita hermética e, por vezes, de mau gosto.

A prática consolidada há mais tempo consiste em manter a todo custo a impessoalidade do texto, julgando transmitir uma suposta credibilidade. Ainda que fique muitíssimo claro que aquela seja uma opinião pessoal do autor, ele jamais poderá dizê-la diretamente (na 1ª pessoa); deve recorrer a quantos constata-se, infere-se e frise-se forem necessários.

Ora, que eu saiba já há consenso acerca da impossibilidade de completo distanciamento entre o sujeito e seu objeto de estudo, de modo que nenhum conhecimento está imune às subjetividades humanas. No entanto, e apesar do esforço da filosofia pra manter o positivismo longe ao menos das ciências humanas, o ranço permanece.

Eu concordo totalmente que a linguagem dos textos científicos deva ser a denotativa (aquela de quando usamos as palavras em seus sentidos mais restritos; os sentidos do dicionário), mas com o objetivo único de facilitar a compreensão dessas obras, cujo conteúdo já é, por si só, complexo. Daí a pensar que denotação pressupõe impessoalidade, é uma forçação de barra. O uso da 1ª pessoa não desmerece o texto, nem sugere que ali serão abordadas confissões íntimas; apenas elucida que aquela afirmação parte de convicções do autor.

Notícia aparentemente boa: alguns juristas resolveram enfim abandonar a falsa impessoalidade e já escrevem na 1ª pessoa...
...do plural, vejam só! O futebol é mesmo uma caixinha de surpresas; agora exporta vício de linguagem.

Assim, embora o livro seja assinado por apenas uma pessoa e defenda tese divergente do resto da doutrina, o escritor, receoso de parecer pedante frente à tão modesta classe jurídica, falará não apenas por si mas também pelo co-autor imaginário.

É nós em campo, sempre respeitando o adversário.

6 PALPITES:

Samya disse...

ótimo texto!
hhahahhahha
e uma das coisas mais engraçadas da hora do almoço é ver esses programas de esporte.
só saem as pérolas ali.

beijos e tava com saudade das suas palavras :)

Anônimo disse...

Lorena,

Já sou uma fã dos seus posts! Sempre venho dar uma olhada se tem algum texto novo.

Você escreve muito bem. (na minha humilde opinião! rss)

acabo sempre voltando e lendo um texto em especial: "A você".

de uma leitora assídua,
Carol

Carlos disse...

Você cometeu um erro, se quis imitar os paulistanos. Aqui não se escreve "é nós", mas... "é nóIs" hehehe o "i" é o diferencial.

Marcelo Pessoa disse...

leia algum texto de exatas, então... Foram 5 anos e meio de tédio.

Excelente, Lore.

Victor Martins disse...

escrever em 1ª pessoa do plural também é descaração... não se fala pelos outros...

disse...

Concordo! Mas um dia essa gente toma vergonha.rs