Tenho tido uma necessidade grande de estabelecer com as pessoas diálogos de vida (diálogos sobre a vida, para ampliá-la). Já faz um tempo abro mão do diálogo padrão (na realidade em que vivo, bem pequena, admito), em que todos lêem os mesmos livros, ouvem as mesmas músicas, vêem os mesmos filmes, visitam os mesmos lugares. Sei que é normal que, por termos origem e criação semelhantes, acabemos por acessar as mesmas fontes; mas não é um pouco estranho todos se emocionarem com as mesmas coisas? Não tenho muita certeza da resposta. Aliás, nem sei afirmar se essa uniformidade existe mesmo ou é coisa da minha cabeça. Já discuti a questão algumas vezes, tentando entender porque de repente todos ao meu redor valorizam o candomblé, malabares, samba de roda e Criolo (o rapper) de maneira tão veemente que me sinto envergonhada de dizer que não me apetece nenhum deles. Desnecessário dizer que respeito tais manifestações. Longe de ser um respeito hipócrita, que opta pelo distanciamento, e sim uma genuína compreensão da importância, do valor e da necessidade de não-opressão e de espaço. Mas preciso ser sincera ao dizer que não me emocionam, por questões muito particulares (porque emoções são sempre fruto de experiências muito particulares), dentre elas questões sócio-culturais, claro! Inútil fingir que não sou essas influências ou que sou outras... mas me dei conta de que perdemos anos tentando forjar emoções ou contê-las. Esses comportamentos e diálogos, pautados em emoções forjadas, fracassaram terrivelmente em resolver meu problema de angústia quando, ao final do dia, deitei tantas noites frustrada com dores que não vão se dissolver apenas por eu ser politicamente correta e ter sido aceita por grupos simpáticos. Um dia eu vou morrer e isso pesa, nas mínimas coisas, sem glamour e sem importância política direta. Nas celeumas amorosas e nas decisões profissionais. Há bastante tempo me toquei de que sou guiada por isso, não tem jeito. Engraçado que levei anos me culpando por meu sofrimento insistente e pela dificuldade em seguir os caminhos postos à minha disposição; justamente por me culpar, fui incapaz de criar caminhos novos. Eu pensava nas facilidades que tive, na educação que tive, na consciência que ganhei, e me culpava por não conseguir agir e fazer a diferença num mundo cheio de urgência, ou sequer conseguir ser feliz. Invejei muito aquelas pessoas que parecem não se atormentar, que trabalham muito, riem, se enfeitam e dormem em paz. Mas não mais! Nos últimos anos, tive uma epifania (em slow motion, é verdade) que me acordou. Minha dor é legítima, tem nome, tem história, tem aval, e não é só minha. Ontem passei a noite ouvindo uma palestra de Viviane Mosé. Quando li Nietzsche, muita coisa fez sentido, mas muito passou batido. Agora, nove anos depois, me fez um bem danado! Dá muito alívio descobrir que algumas pessoas se dispuseram a estudar minha angústia com seriedade, e explicam tanta coisa (e deixam tantas pra eu explicar) que resolvi assumi-la e fazer dela o centro de tudo! Hoje eu dei as boas-vindas à minha angústia, porque ela resulta da necessidade de viver realmente o mundo, de sentir esse tempo que passa. Em mim o muito bonito dói tanto quanto o muito feio, e é preciso saber lidar com isso. Mas de que forma? Por que não estamos falando sobre isso? Por que vomitamos verdades em mesa de bar se choramos de dúvida na cama? Pra que exibir tantas certezas se ainda somos completos deficientes emocionais? Hoje eu quero é transformar minha dor em algo concreto, assumir minha individualidade (encarada da maneira mais honesta possível, menos forjada possível), respeitar minhas emoções e, sobretudo, intensificar meu contato com o mundo. Eu quero entender em que contexto se deu a formação do meu racionalismo histérico, dominador, idealista, em que realidade (de gênero, temporal, espacial, familiar) surgiram minhas complexidades afetivas. E olha aí que incentivo bacana:
3 PALPITES:
Muito muito bom!!
Eu costumo sentir inveja das pessoas que conseguem viver nesse mundo podre sem se abalar... mas, quando olho novamente, percebo que elas não estão vivivendo, apenas sobrevivendo, subexistindo.
Adorei Ló!! Que bom você assumir sua angústia... na minha singela opinião, há de se ser feliz com ela, porque cura, cura mesmo não vejo não.. ao menos não pras minhas!rs São partes nossas, e tem seu valor. Ao menos o de sacudir e apontar... saber de onde vem e o que significam é um passo importante pra convivência pacífica, se jogue.
E a uniformidade é real, em certa medida. Não absoluta, eu acho. Mas rola. A mim causa estranheza, por exemplo, essa sensação-padrão de desajustamento de todos ao nosso redor. Minha, inclusive. Mas é tão uniforme que me faz questionar bastante tanto desajuste e desencaixe. Será mesmo? Isso me dá, taí, uma angúuustia...rs
rapaz...esse nó que ficou preso aqui na minha garganta e esse salto agulha pisando no meu peito a cada palavra que eu lia, não me permitem expressar a identificação que senti lendo esse texto. lembrei exatamente agora de uma carta que eu te escrevi da Itália, anos atrás, e você me respondeu toda chorona perguntando como eu podia falar de mim e ser tanto você ao mesmo tempo?? agora tá explicado.
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